Dois Dribles

Blog

Dois Dribles

Sobre NBA e afins

A cabeça de Derrick Rose é um problema maior do que seus joelhos machucados

(AP Photo/Tony Dejak)

A carreira de Derrick Rose é uma tragédia. Triste, dramática. Aquele que já foi eleito o melhor da liga, o mais novo a vencer o prêmio de MVP, hoje é um cara machucado. E não são só os seus joelhos, quatro vezes operados, duas vezes cada um deles, ou seus tornozelos, que agora o impedem de entrar em quadra. A cabeça de Derrick Rose não está mais legal para competir em alto nível.

Na temporada passada, quando deu sinais que poderia ter um ano ou outro com um rendimento mediano, de um jogador útil, ele já surtou e despareceu sem dar qualquer satisfação antes de uma partida, em janeiro, contra o New Orleans Pelicans, quando defendia o New York Knicks. Agora, pelo Cleveland Cavaliers, fez algo parecido. Com uma torção no tornozelo, se afastou do time por tempo indeterminado para pensar se vale a pena ou não insistir na carreira de jogador de basquete.

O caso de Rose é quase sem precedentes no basquete. Não é como um Greg Oden, que tinha um potencial enorme e mal conseguiu se manter em quadra. Ou como Grant Hill, Penny Hardaway e Brandon Roy, que mostraram que eram excelentes e tiveram as carreiras comprometidas. Derrick chegou ao topo. Foi o melhor e caiu vertiginosamente.

Parecido com ele talvez só o lendário Bill Walton, pivô MVP pelo Portland Trail Blazers nos anos 70, mas que, apesar de ter perdido o equivalente a 9 temporadas das 14 que tentou jogar profissionalmente, era um símbolo da cultura hippie da sua época: tudo estava em paz e o que importava, no final das contas, era ser feliz, ficar numa boa e falar um monte de coisas sem sentido vestindo uma camiseta tye die.

+ Memphis demitiu seu técnico para nos lembrar que os jogadores mandam na NBA

+Time forte, boas estatísticas e próximo da fila: Harden já é o favorito para ser MVP

Rose é um produto da cultura esportiva pós-Jordan, em que o jogador precisa superar as adversidades, mostrar um sacrifício messiânico para se provar merecedor da glória. ‘Work hard’ é o mantra desses caras que não se podem dar ao direito de falhar. Ainda mais no caso dele, um garoto de Chicago, draftado pela franquia da cidade com a primeira escolha do draft e que montou um time com cacife para ser campeão ao seu redor pela primeira vez desde que Michael Jordan, maior ídolo do esporte, se aposentou. Era a esperança de uma torcida inteira sobre suas costas – que foi muito bem suportada até o dia que um de seus joelhos sucumbiu.

Foi uma lesão gravíssima, que o tirou de ação de um total de 91 partidas seguidas – os playoffs de uma temporada, outra temporada inteira, mais uma série de playoffs. Rose voltou, jogou umas semanas e logo outro joelho se machucou. Mais 76 jogos se recuperando. E de volta no ano seguinte. E mais uma vez no ano passado.

Em dez anos de carreira, Rose passou o equivalente a três e meio encostado no departamento médico. Praticamente todos eles depois de ter sido eleito o MVP mais novo de todos os tempos. Justamente na época em que os armadores se tornaram os maiores protagonistas do basquete. Imagine o que é para um cara simplesmente não poder mostrar que ainda é o melhor do mundo naquilo que faz, em um cenário absolutamente favorável, com toda a confiança e pressão de uma cidade inteira debruçada sobre seus ombros. Deve ser insuportável.

+ Saiba quais as equipes que pagam os salários mais altos do esporte

+ Siga o Fera no Twitter!

Clinicamente falando, o que se sabe atualmente é que Rose está com um problema físico relativamente simples – principalmente se comparado ao que já passou. O que o perturba é a desconfiança geral sobre sua capacidade. Possivelmente, aliada à frustração de tudo que era para ter sido e não foi.

É óbvio que Rose nunca mais vai ser um craque. Talvez até consiga ser um coadjuvante útil. Mas será que é o suficiente? Será que não é mais humilhante do que simplesmente desistir e atestar que o corpo venceu essa disputa? Eu realmente não sei.

Claro que também tem muita grana em jogo – 80 milhões de dólares de um contrato com a Adidas por cumprir, que seria rescindido com sua aposentadoria precoce – e também a possibilidade de participar de um elenco vencedor – afinal estar no mesmo time que Lebron James é quase que um passaporte carimbado para a final da NBA. São duas coisas que não são fáceis de se abrir mão.

Mas para jogar em alto nível, para estar numa disputa dessas, o cara tem que estar com muita gana. Para abrir mão da sua vida para se dedicar a um esporte, jogar 80 e tantas vezes ao longo de um ano, é preciso estar completamente dedicado a isso. E acho que Rose, por tudo que passou, não tem nenhuma condição de estar nesse estado de espírito. Nem que seus joelhos e tornozelos permitam, eu entendo perfeitamente que a cabeça de Rose não tenha mais condições de entrar em quadra.

Comentários