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O paraíso de Simmons e o inferno de Fultz: calouros do Sixers vivem extremos

Ben Simmons, Joel Embiid e Markelle Fultz (AFP)

Finalmente, depois de quatro anos se esforçando para ter a pior campanha possível, o Philadelphia 76ers entrou em um campeonato para tentar vencer. O time não vai disputar título, não é nem favorito para os playoffs, mas pela primeira vez em muito tempo começa uma temporada tentando seu melhor. É o ponto de mudança da reconstrução da franquia, conhecida como ‘The Process’, em que o time praticamente perdia de propósito por anos a fio na busca das melhores escolhas de draft, acumulando o maior número de jogadores promissores que fosse possível em um mesmo elenco. Por mais que muita gente boa tenha chegado ao time nessa dinâmica (Joel Embiid, Dario Saric, Nerlens Noel, Jahlil Okafor), a temporada de agora era a mais especial de todas: entrariam em quadra, pela primeira vez, as duas únicas primeiras escolhas que o time conseguiu, Ben Simmons e Markelle Fultz.

Duas semanas de bola quicando e o sentimento em relação aos dois é dividido. Um, Simmons, é a melhor surpresa que o time poderia ter – completo, inteligente e decisivo, parece que está na NBA há anos. O outro, Fultz, é uma das grandes decepções dos primeiros dias de temporada – entrou em quadra machucado, não conseguiu entregar praticamente nada, e agora foi afastado para tratar uma lesão incapacitante no ombro.

O cenário é ainda mais curioso diante das expectativas que cercaram essa turma de calouros no momento do draft, em junho. A safra de novos jogadores era tratada como uma das melhores dos últimos tempos. Markelle, a primeira escolha entre todos, era a esperança suprema de que uma franquia poderia mudar, de uma hora para outra, com a chegada de um jovem talento. Simmons, que tinha sido escolhido um ano antes mas ficou de fora a temporada inteira por lesão, quase que foi esquecido.

Em quadra, no entanto, o australiano tem sido o jogador mais decisivo do time – mesmo sendo apenas os primeiros sete jogos profissionais da sua carreira. Como já se esperava, Ben Simmons é o comandante da equipe em quadra. Chama as jogadas como um veterano, se utiliza do seu corpo, imenso para um armador, para dominar nos rebotes. Pontua bem dentro das suas limitações de chute. Nos últimos 35 anos, só Scottie Pippen, Russell Westbrook e Fat Lever começaram uma temporada com médias tão impressionantes e completas como as dele (18,4 pontos, 9,1 rebotes e 7,7 assistências). Nenhum deles era calouro na oportunidade.

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Mais importante de tudo, tem liderado um Philadelphia que finalmente está jogando bem. Apesar de ter três vitórias e quatro derrotas, tem feito jogo duro contra rivais mais fortes. Venceu uma vez o Houston Rockets de maneira convincente e perdeu outra na última bola. Levou o jogo contra o Washington Wizards até o último minuto. Derrotou o Detroit Piston com folga na sua melhor partida até o momento e bateu o Dallas Mavericks. Como um termômetro, toda vez que fez mais de 20 pontos, levou o Sixers à vitória.

A empolgação da torcida só não é plena pela situação de Markelle Fultz, primeira escolha do último draft. O jogador começou a temporada com uma lesão no ombro direito, braço que usa para fazer o arremesso, e não conseguiu emplacar uma atuação convincente até o momento. Chutou míseros 33% nos arremessos de quadra e acertou só metade dos lances-livres. Pior: ainda virou piada pela mecânica de arremesso bizarra – segundo ele, fazia assim para preservar o ombro, mas o staff do Sixers já acredita que a mudança no movimento pode ter piorado a lesão.

Enquanto esteve em quadra, nos quatro primeiros jogos do campeonato, até que tenha sido vetado pelo Departamento Médico do time, Fultz não conseguiu ajudar em nada o seu time. A diferença para o Toronto Raptors aumentou para 20 pontos com ele jogando. Contra o Wizards, seu plus/minus foi de -18. Ninguém teve um desempenho tão ruim na equipe do Philadelphia até agora.

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Para piorar, vários calouros que foram escolhidos no mesmo draft, por outras equipes, começaram a temporada voando. Jayson Tatum, do Boston Celtics, deu excelentes respostas de imediato. D’Aaron Fox, do Sacramento Kings, idem. Lonzo Ball, o mais badalado, vive altos e baixos naturais dos calouros, mas com sinais de brilhantismo. Tudo isso só aumenta a pressão nas costas do jogador do Philadelphia.

São poucos jogos, ele é um calouro, não tem nem 20 anos e sua lesão não parece séria, mas seu insucesso imediato e o bom desempenho de Simmons só provam como a franquia acertou com um e errou com outro. Com Ben, o 76ers teve a calma necessária para esperar o jogador se recuperar, treinar e se fortalecer. Só o colocou em quadra quando estava 100% novamente. Com Fultz, inexplicavelmente apressou as etapas e não quis esperar para que ele estivesse preparado fisicamente para dar o seu melhor. Ficou ruim para o Sixers e para Fultz.

Por mais que o time tenha caído na tentação de começar a dar resultados imediatos depois de muito tempo lambendo o chão da liga, agir com cautela é o mais indicado. Como fez com Simmons. Como fez com Joel Embiid. Não custa nada repetir com Markelle. E, quem sabe, em breve ter uma excelente dupla.

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