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Vale a pena perder de propósito para montar um time bom no futuro?

(Bill Streicher-USA TODAY Sports)

Ver Joel Embiid, de 23 anos, e Ben Simmons, de 21, voando em quadra pelo Philadelphia 76ers levanta algumas questões sobre a estratégia mais sórdida de reconstrução de elenco na NBA. Perder de propósito anos a fio em busca do maior número possível de boas escolhas de draft é uma tática que vale a pena? Por mais que o exemplo do Sixers ainda seja muito embrionário no seu resultado – é o primeiro ano que o time tem mais vitórias do que derrotas – a impressão é que sim, vale a pena. O time da Pennsylvania tem dois jogadores que dão toda a pinta de serem projetos muito bem encaminhados de superestrelas, já joga de um modo vistoso, conta com um elenco decente e, por ter muitos jogadores em contrato de calouro, ainda não tem a folha salarial comprometida pela eternidade, o que chama a atenção de uma série de jogadores veteranos – há quem aposte que Lebron James já cogita uma mudança para a Philadelphia ao final desta temporada.

No entanto, eu não acho que o plano seja dos melhores, não. Aliás, acho absolutamente desaconselhável fazer isso que o Sixers fez com seus fãs. O passado e o presente provam como existem táticas mais eficientes e muito menos sofridas do que o ‘tank’.

Uma coisa que temos que ter em mente é que, por mais empolgante que o time do Sixers pareça, ele ainda é apenas um time jovem, despretensioso, sem chances reais de ganhar no curto prazo (leia-se: este ano). Ainda é preciso que muita coisa dê certo e evolua para que o time efetivamente se torne um concorrente real a título.

Vamos pensar o que levou o Philadelphia a ser o que ele é hoje. Basicamente, a estratégia foi perder por algumas temporadas seguidas o máximo que fosse possível para acumular boas possibilidades de conseguir escolhas altas de draft e, assim, selecionar os melhores talentos disponíveis. A ideia surgiu lá em 2012-2013, quando o time tinha acabado de trocar alguns de seus melhores jogadores e não tinha boas perspectivas para os anos seguintes.

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Neste período, draftou 24 jogadores. Oito deles no primeiro round. Duas primeiras escolhas, duas terceiras, uma décima e mais uma décima primeira. Teoricamente, um sucesso estrondoso. Mas draft de calouros é um treco complicado. Uma coisa é um time ir para uma escolha sabendo exatamente o que precisa para completar seu elenco. Outra é sempre buscar o jogador mais promissor – só olhar o tanto de gente que saiu nas primeiras posições e não vingou na liga, né Anthony Bennett e Hasheem Thabeet?

Dos escolhidos, além de Embiid e Simmons, quase todos são alguma coisa questionáveis. Markelle Fultz, primeira escolha deste ano, infelizmente ainda não entrou em quadra saudável. Jahlil Okafor, terceira de dois drafts atrás, está encostado no elenco à espera de uma troca por não ter os atributos defensivos ideias para jogar no garrafão da equipe. Michael Carter Williams, 11ª há quatro anos, foi calouro da temporada, mas mais por falta de opção do que por qualidade própria, e hoje é reserva do reserva em Charlotte.

As demais escolhas foram usadas para negociações. Nisso o time trocou Elfrid Payton, bom armador, e Willy Hernangomez, pivô promissor, por Dario Saric, um bom jogador que ainda está no elenco.

O aproveitamento das escolhas não foi dos melhores, mas o tanking conta com isso mesmo: já que o draft tem uma boa dose de sorte/azar, é preciso ganhar no volume. De 24 escolhas, menos de cinco efetivamente se salvaram. Mas vale a pena passar por cinco anos medonhos por cinco jogadores utilizáveis? Dois craques e outros dois ou três úteis?

É provável que hoje a gente menospreze tudo que o Sixers passou neste passado recente, mas foram temporadas desprezíveis. Um total de 300 derrotas e apenas 81 vitórias. Uma base de fãs praticamente arruinada por meia década. O esforço é proporcional ao retorno – que nem é certo ainda? Eu não acho.

A liga de hoje é um exemplo de que existem outras formas menos dolorosas para conseguir formar um time legal e promissor. Claro que não é todo dia que um Brooklyn Nets vai fazer uma caridade como aquela que mandou escolhas de draft pelos seis anos seguintes ao Boston Celtics ou que um Lebron James vai dizer que quer jogar na equipe e ainda levar uma porrada de estrelas como aconteceu com o Cleveland Cavaliers, mas Golden State Warriors de Stephen Curry, Klay Thompson e Draymond Green também foi moldado no draft sem grandes sacrifícios, assim como o jovem e talentoso Milwaukee Bucks, de Giannis Antetokounmpo, Jabari Parker e companhia. Voltando um pouco no tempo, o Oklahoma City Thunder também reuniu Russell Westbrook, Kevin Durant, James Harden e Serge Ibaka sem perder de propósito por vários anos seguidos.

Não é fácil, mas é possível draftar bem sem ter que estar com uma das primeiras escolhas todos os anos.

Por outro lado, a maioria dos outros times que perderam deliberadamente ao longo dos anos não tiveram resultados tão expressivos ou não conseguiram sequer reunir todo esse talento na equipe. O exemplo mais emblemático e traumático foi o do Los Angeles Clippers dos anos 80 e 90. Tomou surra de meio mundo, passou quase uma década entre os piores times da NBA e o retorno foram três anos indo aos playoffs com uma eliminação logo na primeira rodada.

O ‘tanking’ valeu a pena em circunstâncias muito específicas. Como o San Antonio Spurs ter se esforçado ao máximo para ter um mísero ano ruim, aproveitando a lesão de David Robinson, para selecionar o novato Tim Duncan. Ou quando o Houston Rockets se esforçou para selecionar Hakeen Olajuwon e Ralph Sampson por dois anos seguidos e depois montou um dos melhores times para a década seguinte. Um ano de sofrimento para vários de bons resultados e não o contrário.

Eu torço para que o projeto do Sixers dê certo. Não pelo método, pois acho assustador que outros times se encorajem com o resultado, mas por gostar da franquia e por estar encantado por seus jogadores. Mas tenho a convicção que existem formas menos dolorosas de montar um time tão bom quanto esse.

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