Inglês com medo de altura conta como virou hexa mundial de salto de penhasco

Gary Hunt afirma que enfrenta fobia imaginando quantas manobras consegue fazer nos 27 metros entre a plataforma e a água

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O medo, geralmente, é um empecilho para a grande maioria das pessoas, dificultando a realização de uma série de coisas. Por exemplo, se tivesse medo de altura, você pularia de um trampolim? E ainda pior, de uma plataforma em um penhasco de 27 metros da água?

É justamente o dilema que enfrenta o britânico Gary Hunt. Ele, no entanto, usa sua fobia para melhorar e se desafiar. "Nos últimos dez anos, parte do meu trabalho é ir a lugares com 27 metros e me imaginar pulando da plataforma, fazer saltos mortais e avaliar quantas manobras eu consigo fazer daquela altura", conta ele ao Fera.

Na verdade, ele não carrega esse medo desde criança. Antes de começar a saltar de penhascos, ele já pulava em piscinas a partir de trampolins a dez metros de altura. "(Essa fobia) apareceu junto com o meu trabalho. Por isso, se estou em uma sacada ou telhado de algum prédio, não consigo evitar pensar nas mesmas coisas (o mergulho e as manobras). De vez em quando, isso volta à minha cabeça, de ficar perto de saltar", explica.

 

 

E parece que essa visualização do salto e enfrentamento do medo tem dado certo. No ano seguinte em que começou a saltar, começou a ser organizado um campeonato mundial da modalidade, em 2009. Desde então, das oito edições do torneio, Hunt foi campeão de seis e vice em duas. E ele começou 2017 com o pé direito, já que foi campeão da etapa de Inis Mór, na Irlanda, a primeira do ano, na última semana. 

Em conversa com o Fera, feita dias antes da estreia na temporada, Hunt conta como começou no esporte, os hobbies que usa para se distrair durante as competições e também sobre quedas e acidentes de colegas de trabalho. 

 

FERA: Como alguém com medo de altura pode ser hexacampeão mundial de salto de penhasco?

GARY HUNT: (Risos) A resposta é: antes de começar a saltar de penhascos, eu, na verdade, não tinha medo de altura. Isso surgiu em função do meu trabalho. Nos últimos dez anos, parte do meu trabalho é ir a lugares com 27 metros e me imaginar pulando da plataforma fazendo saltos mortais e avaliar quantas manobras eu consigo fazer daquela altura. Por causa disso, se eu me encontro em uma sacada ou em no telhado de algum prédio, não consigo evitar pensar nas mesmas coisas. De vez em quando, isso volta à minha cabeça. Então, não é um medo que tenho lutado desde criança, mas um que se desenvolveu junto com o trabalho. 

 

 

 

Antes, você saltava de trampolins de 10 metros. De onde surgiu a ideia de pular de um ambiente totalmente diferente, como mar aberto e penhascos?

Foi apenas um caso de oportunidade. Sempre fui conhecido como um saltador que tentava novas manobras e tentava mergulhos com os pés primeiro. E, em 2006, tive a oportunidade de trabalhar em um show de mergulhos por um mês, ao final da minha temporada de competições. Ali foi a primeira vez que conheci um saltador de penhascos, Steve Black, um australiano que era campeão mundial.

Assim que entrei nesse mundo, eu sabia que, para mim, era um novo caminho que queria tomar. Eu podia ver que minha carreira como um saltador de dez metros seria muito difícil, especialmente pela ascensão de Thomas (Robert) Daley, medalhista de bronze nos Jogos Olímpicos (de Londres, em 2012). Quando comecei a entrar no mundo de salto de penhascos, foi como se muitas portas estivessem se abrindo para mim. Não hesitei em andar por elas. 

 

Você mudou sua preparação ou seu treinamento? Qual a diferença de um tipo de competição para a outra?

Para ser honesto, o treinamento não muda muito. Os fundamentos, o salto, a posição na plataforma e os exercícios que preciso fazer para executar em alto nível são os mesmo. Estamos lidando com a mesma física, você ainda precisa pular alto e girar rápido. A principal diferença é apenas a entrada na água. Então, há um tipo de treinamento mental, no qual você precisa manter uma confiança da altura e trabalhar na noção de espaço, que leva um grande tempo na transição de competições de dez metros para as de 27 metros. É um longo processo para aprender como terminar um mergulho corretamente e entrar na água com os pés primeiro.

 

 

Como foi seu primeiro salto de um penhasco?

Não tenho uma memória única do meu primeiro salto de um penhasco. Isso aconteceu de forma progressiva. Comecei fazendo isso em uma apresentação em um pequeno tanque de água pulando de 18 metros. Aos poucos, eu colocava a plataforma cada vez mais alto até ganhar a confiança de pular de 18 metros e, no ano seguinte, pulei de 20 metros. E a competição da Red Bull era de uma plataforma ainda mais alta.

Mas, para mim, um grande momento foi na primeira competição da Red Bull Cliff Diving World Series, em Portugal. Aquilo foi algo completamente novo para mim. Desde aquele dia, nós (saltadores) voltamos no mesmo local todos os anos. E é muito diferente pular de penhascos porque requer uma força mental muito grande e é um dos momentos mais duros e assustadores do ano para nós. 

 

A competição da Red Bull começou em 2009 e, dos oito torneios até aqui, você ganhou seis. Você achou que poderia começar tão bem assim no esporte?

Antes de começar a saltar de penhascos, eu tinha sonhos sobre os saltos que poderia executar. Estava confiante que, com o tempo suficiente, eu poderia aprender saltos muitos difíceis. Mas não sabia se teria o talento para fazer os saltos bem e realmente não sabia como começar, como achar uma entrada neste mundo. Foi somente ano após ano.

Meu primeiro ano de competições com a Red Bull foi em 2008, não era a World Series, mas houve duas competições, na Itália e na Áustria. Eu acho que terminei bem, nas quarta e quinta colocações. Mas me deu motivação suficiente para continuar. De maneira devagar e segura, comecei a perceber que tinha chances de vencer. E essa percepção me fez trabalhar ainda mais forte para chegar e me manter no topo. 

 

Você já pulou no Brasil? Como era o local e como foi sua experiência no País?

Já estive no Brasil algumas vezes. Uma vez com a competição da Red Bull e por três anos seguidos participei do "Mergulho Radical" (quadro do programa "Esporte Espetacular", da Rede Globo), ao lado do Jucelino Junior, o saltador brasileiro, e tivemos a chance de saltar algumas vezes. Infelizmente, a competição da Red Bull foi cancelada devido a problemas com a plataforma. A gente pulava de um guindaste, o que era uma experiência única. A recepção que recebíamos do público que estava assistindo da praia é realmente algo que ficará marcado na minha cabeça e eu irei lembrar por um longo tempo. 

 

 

É verdade que você toca piano muito bem?

Muito bem, não, não concordo (risos). É um hobby para mim. Meu pai tocava em um nível alto e me ensinou quando eu era bem pequeno, mas parei quando comecei a saltar. Só há alguns anos, eu decidi comprar um piano e recomeçar. Sou autodidata e não tenho um alto nível musical. Tenho um repertório pequeno, mas que eu gosto de tocar.

 

Você tem algum outro hobby que faz enquanto não está pulando de penhascos?

Sim, meu outro principal hobby é malabarismo. Eu conheci um malabarista muito talentoso na França, Brandon Birchak, que agora trabalha em um dos maiores espetáculos de circo do mundo, The Han Show, em Wuhan (na China). Quando estava mergulhando em um programa com ele e o vi fazendo malabarismo, na hora que fiquei com vontade de aprender. Amei e fiquei viciado nisso. Quando eu trago minhas bolas ou claves de malabares para as competições de salto de penhasco, é uma maneira fantástica de me distrair da angústia e do estresse do torneio. Então, é muito bom para minha concentração. Achei uma ótima ferramenta de aprendizagem.

 

Você já fez malabarismo em um penhasco?

Não... Na verdade, eu levei algumas claves de malabarismo para a plataforma em uma das competições na Turquia, em 2009. Mas isso não acontece com muita frequência. Geralmente, é apenas para manter minha mente ocupada antes e depois dos saltos. 

 

 

Você já viu muitas quedas de saltadores que resultaram em lesões graves?

Sim, já alguns acidentes feios. Isso acontece quando um esporte é novo e os saltadores estão tentando chegar aos seus limites. Em todos os acidentes que vi, os saltadores ficaram bem, no longo prazo. Geralmente, é muito doloroso no momento, mas nós ficamos de pé de novo e tentamos mais uma vez. Você tem que usar esses exemplos como uma maneira de te manter concentrado e saber que é bom ficar com medo lá em cima. Devemos usar esse medo para nos manter a salvo. 

 

Qual foi seu pior acidente?

Meu pior acidente foi na Itália, em 2010, quando eu saltei correndo pela primeira vez e fiz um mortal quádruplo e dois giros e meio. No treino, o mergulho deu certo, mas, na competição, não tive um bom salto, não terminei a entrada na água e cai com o peito em cima da onda. Isso me deu uma enorme chicoteada, machuquei meu pescoço e tive dificuldades para respirar. Temos uma ótima equipe de segurança, então eles me ajudaram e, bem, ainda estou aqui para contar a história. 

 

Qual é o lugar mais difícil que você já saltou?

Irlanda (onde estava no dia da entrevista). Para mim, uma das competições mais difíceis da minha vida foi quando o torneio da Red Bull veio para cá, pois a localização é muito selvagem e as ondas eram gigantes. Além disso, ainda estava me recuperando de catapora. Então, não estava na melhor forma. Agora tenho mais experiência, mas você nunca sabe. Não como saber se o tempo ficará ensolarado ou chuvoso aqui. Definitivamente, é um dos grandes desafios, ainda mais neste ano, que estamos começando com bastante dificuldade. 

 

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