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Sobre NBA e afins

O inexplicável instante em que Carmelo Anthony se tornou imprestável

(Mark D. Smith-USA TODAY Sports)

Eu sei que não vai ser fácil defender a reputação de um cara que era para ter formado um super trio no último ano e foi a parte mais desastrosa da experiência, que mesmo com uma participação pífia nos playoffs e em evidente decadência descartou qualquer possibilidade de ser reserva, que começou a carreira como principal concorrente de Lebron James e, agora, não permite qualquer tipo de comparação com o melhor jogador da liga nos último anos. Apesar de tudo isso, eu não entendo qual foi o momento que Carmelo Anthony se tornou um absoluto imprestável para boa parte das pessoas – executivos do jogo, técnicos e torcedores – do universo da NBA.

Entendo que com o salário que vinha ganhando e no contexto em que estava inserido no Oklahoma City Thunder o custo-benefício de ter Carmelo no time não era dos melhores. A sua postura arrogante de querer se impor mais na marra e na fama do que na bola também não ajudava. Feitas todas estas ressalvas, eu não entendo em que momento que boa parte da ‘comunidade do basquete’ passou a tratá-lo como um completo inútil.  Pior: como se seu histórico na liga se resumisse a um fominha-perdedor com um pouco mais de sorte que Michael Beasley. É um exagero terrível e, ao meu ver, inexplicável. Não consigo ver quando e porque isso começou.

Carmelo foi um craque. Por mais que o seu currículo não conte com grandes campanhas em playoffs, Anthony foi diretamente responsável pelo sucesso das equipes que defendeu. Sempre. O que vinha sendo o Denver Nuggets até que o draftasse? Era uma franquia que não ia aos playoffs há quase uma década e depois que o escolheu com a 3ª pick do draft engatou uma sequência de dez idas ao mata-mata seguidas (sete com ele e outras três liderados pelo pacote que conseguiu na troca que o enviou para Nova York). E as únicas três vezes que o absolutamente disléxico New York Knicks foi para os playoffs também foram sob o comando do ala.

E não importa que antes o Denver tivesse em seu caminho os muito mais fortes San Antonio Spurs, Dallas Mavericks e Los Angeles Lakers e, depois, o New York Knicks tivesse que bater os quase insuperáveis Miami Heat, Boston Celtics e Chicago Bulls, cada qual em sua respectiva época. Para os haters, Carmelo Anthony é um perdedor, afinão em playoffs e ponto – uma fúria que eu não vejo contra Chris Paul, que tem um histórico muito parecido com o do ala. Não interessa, também, que Carmelo tenha sido um dos maiores pontuadores da NBA inteira nos últimos 15 anos, também. Para essa turma, ele é simplesmente um fominha egoísta – mas quando Kobe Bryant chutava 40 bolas em uma partida, ele estava apelando para a sua ‘mentalidade vencedora’. Não é também porque ele começou lá atrás sendo comparado com Lebron James e naturalmente não conseguiu acompanhar o ritmo do melhor jogador da liga nos últimos 20 anos – até porque Lebron é isso aí, o melhor jogador da liga nos últimos 20 anos, oras – que ele é um câncer.

Não acho Carmelo um coitado, não. Só não entendo porque a régua que media seu sucesso e sua contribuição passou a ser tão diferente das demais.

Anthony foi trocado pelo Thunder por questões financeiras e dispensado pelo Atlanta Hawks porque o time não está interessado em vencer – se Carmelo fosse tão lixo, aliás, a franquia deveria pensar em mantê-lo no elenco, não? Risos. Agora, vai jogar pelo Houston Rockets, que é o time que aparentemente ter a melhor chance de fazer frente ao Golden State Warriors, se é que alguém tem alguma chance.

Como os medíocres se alimentam de migalhas, a internet delirou com a informação de que o Sporsline, site com informações para apostas, diminuiu as supostas chances do Rockets ganhar um título assim que foi confirmada a contratação do ala. A piada é realmente boa, mas não é nada além disso: uma boa sacanagem. Como já dito antes, as chances de alguém vencer a NBA que não seja o atual campeão são ínfimas, logo a correção de 4,8% para 3,9% de chance é praticamente nula, ainda mais sabendo que isso só serve para fins de sites de apostas e não para medir as chances reais de um time. Segundo, e mais importante, que pelo modo como o Rockets vinha jogando, pelos jogadores que saíram e pelos que entraram, sinceramente acho que Carmelo faz do Houston uma equipe melhor.

Acho absolutamente non-sense que tenha alguém que assista basquete regularmente e ache que ele não é trilhões de anos-luz mais útil, versátil e eficiente no ataque e, pasmem, na defesa do que Ryan Anderson, inclusive com um jogo de garrafão muito mais potente – Mike D’Antoni tentou infinitas vezes usar RyNo como pivô em formações que eram para ser mais baixas e ágeis, mas nunca deu muito certo. Com PJ Tucker confirmado no time para fazer o jogo sujo, Carmelo é uma bela reposição para as perdas de Trevor Ariza e Luc Mbah Moute – o primeiro vinha de altos e baixos, mas longe da forma de três temporadas atrás, quando era um excelente defensor nas alas, e o segundo é limitado a ponto de ter demorado dez arremessos e vinte minutos para conseguir fazer uma simples bandeja contra o Golden State nos playoffs que passaram.

Eu realmente acho que Carmelo não era a salvação para um big3 em OKC, apesar de já ter sido uma estrela capaz de carregar times na NBA em outros tempos, mas não é um imprestável que não tem como colaborar uma equipe bem montada e entrosada. Nas circunstâncias atuais e sem ter um salário que trave o desenvolvimento do time, Anthony ainda é uma boa.

Nos últimos três anos, quando de fato seu rendimento vem em queda, seu aproveitamento nos arremessos ‘catch-and-shot’ de três continua bem decente, no patamar dos 40%, substancialmente acima da média da liga. Curiosamente ou não, o Rockets é o segundo time na NBA que mais tenta chutes nestas situações e ter um bom gatilho como Carmelo seria muito bem vindo. Por mais que Anthony tenha alguns hábitos condenáveis de segurar muito a bola e insistir nas jogadas de isolação, Chris Paul e James Harden são tão dominantes com a bola e tão bons criadores de chutes para seus companheiros, que é de se imaginar que Carmelo terá muito mais chances de finalizar como um arremessador bem posicionado do que de travar o ataque do time.

Jogando como um veterano, talvez em um ritmo e com um papel como o que Dwyane Wade assumiu na volta ao Miami Heat, Carmelo tem boas chances de reviver um bom momento com a camisa do Rockets e mostrar que rotulá-lo como um absoluto improdutivo é um erro. Para o desespero daqueles que nunca viram valor nele.

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