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‘Emerson botando fogo’: Relembre do teste de Senna na Indy, há 25 anos

A quase bem-sucedida aventura de Fernando Alonso na Formula Indy, neste ano, nos fez lembrar de outra incursão de um piloto de Fórmula 1 na categoria norte-americana. Há 25 anos, Ayrton Senna deixava a F1 em choque e testava um carro da Indy pela primeira e única vez. Foi com a Penske, em dezembro de 1992, a convite de Emerson Fittipaldi, que Senna acelerou o PC-21 equipado com motor turbo Chevrolet e calçado com pneus Goodyear no curto circuito de Firebird, próximo a Phoenix, no Arizona.

Primeiro, o contexto. Senna estava profundamente descontente com a falta de competitividade da McLaren na Fórmula 1, com a dominância da Williams de suspensão ativa e repleta de controles eletrônicos, e com o fato de que sua equipe usaria motores Ford de segunda geração em 1993 com a saída da Honda da categoria. Por isso, o tricampeão estava livre, leve e solto no mercado – tanto que, no ano seguinte, correu a temporada com contratos assinados a cada corrida.

Assim, o teste de Senna na Indy era também uma forma de pressionar a própria F1, que acabara de perder uma de suas estrelas – Nigel Mansell, campeão antecipado de 1992 com AQUELA Williams, correria nos Estados Unidos pela Newman-Haas, onde acabou sagrando-se também campeão. A “pulada de cerca” de Ayrton visava mostrar à F1 que ela poderia perder seu principal piloto, bem como apertar a McLaren em busca de mais competitividade – e porque não, um salário mais alto.

Foi neste cenário que Ayrton aceitou o convite de Emerson Fittipaldi para testar com a Penske nos Estados Unidos. O jornalista Bruce Martin, da revista inglesa Autosport, falou com personagens daquele dia frio no Arizona para relembrar, 25 anos depois, daquilo que poderia ter sido caso o brasileiro ficasse para correr na ascendente Fórmula Indy.

O jovem canadense Paul Tracy, que fizera algumas etapas pela Penske em 1992, estava em estado de definição de seu contrato com a equipe para 93. Ele ainda não sabia se faria toda a temporada ou parte dela com o time. Como o próprio se recorda, ele já estava amarrado ao carro quando viu duas limousines chegando ao circuito. “O teste já havia iniciado. Estou nos pits e vejo as limousines chegando do lado de fora. O pessoal da equipe abriu os portões do circuito para que os carros entrassem, e achei aquilo muito estranho. Aí, saem Emerson Fittipaldi e Ayrton Senna”, lembra.

“Senna trazia uma bolsa com seu capacete, no que pensei: ‘meu Deus, lá vamos nós’. A equipe tinha outro carro pronto para o teste. Eu estava pisando em ovos porque ainda não sabia se faria toda a temporada com a Penske. Havia alguns rumores circulando de que Senna iria assinar com a equipe e eu queria ver se ele iria entrar no carro”, contra Tracy.

Roger Penske, dono da equipe, conta como se deu o acerto para que Senna fizesse o teste. “Emerson me ligou e perguntou se Ayrton poderia experimentar o carro. Claro que aceitei na hora”, disse, lembrando que havia certo interesse do brasileiro em disputar as 500 Milhas de Indianápolis. Roger redigiu um contrato de uma página somente para o teste, Ayrton assinou e aí foi só vestir macacão e capacete para acelerar.

Abaixo, a matéria da Band cobrindo o teste de Ayrton.

Senna testou o carro da Indy antes mesmo que Mansell o fizesse – na mesma pista, aliás. O inglês já estava assinado, mas àquela altura ainda não havia experimentado o Lola-Ford da equipe.

Emerson foi primeiro à pista fazendo um teste de verificação dos componentes do carro. Depois disso, Senna estava livre para acelerar. Em matéria à Band, contou que precisou de umas dez voltas para aquecer os pneus corretamente, já que fazia muito frio na região à época. Os mecânicos, então, foram ao carro para ajustar a posição dos pedais para que Senna pudesse pilotar, já que Ayrton era mais baixo que Emerson. Já sentado, o tricampeão disse que não precisaria.

Rick Mears, que anunciara sua aposentadoria dias antes, esteve presente ao teste de Ayrton. “Era visível que ele estava à frente do carro, embora fosse um equipamento em que ele jamais havia andado antes, em uma pista que ele não conhecia. Lembro de vê-lo contornando a curva antes da reta, uma curva apertada e lenta à direita; ele entrou forçando, com o carro saindo de traseira e ele corrigindo de uma maneira que nos mostrou o tamanho de seu talento – não que ele precisasse nos provar nada”.

Mears conta, na reportagem, que o brasileiro era um sujeito legal, quieto, e com os pés no chão. E conta da alegria de Ayrton a ter o carro nas mãos. “Lembro dele falando dos carros de Fórmula 1 com os paddleshifts (borboletas de troca de marcha atrás do volante), e suspensão ativa. E ele disse ‘isso é legal, eu posso pilotar o carro novamente'”.

Ayrton Senna completou cerca de 15 voltas com o Penske-Chevrolet, anotando sua melhor volta em 49,09 segundos, um tempo 0,61 segundo mais rápido que o de Emerson, que pilotara pouco antes. O recorde de Fittipaldi naquela pista, com aquele carro, era de 48,5 segundos.

Segundo a equipe, a reunião de depois do teste, com os engenheiros, foi mais uma prova da maestria e do talento do brasileiro. “O debrief foi fascinante, porque ele identificou de cara as forças e as fraquezas do carro, coisas com as quais tivemos de lidar durante toda a temporada”, lembra Chuck Sprague, chefe da equipe. “Ele elogiou os freios, gostou do câmbio manual e disse que no geral era um carro muito equilibrado. Logo de cara, Ayrton estava confortável e integrado ao carro – e é o que se espera quando um cara desse naipe senta em um carro de corrida”, aponta.

O chefe dos mecânicos, Rick Rinaman, também se impressionou com o feedback de Senna. “O que mais me lembro foi dele falando quando a aerodinâmica do carro parava de fazer efeito, em que ponto da pista, e não só sobre as asas, mas também da parte de baixo do carro. Aquilo foi incrível, porque não era o tipo de coisa que estávamos acostumados a ouvir”.

Roger Penske também foi um dos que se impressionou. Confira recente entrevista do dono da equipe ao canal Senna TV:

Ayrton Senna gostou. E mostrou ter feito acordar dentro de si a paixão pelas corridas, arrefecida com o carro pouco competitivo que teve em 1992, com poucas chances contra equipes mais fortes. “Carro de corrida é uma droga no sangue da gente. Quando ligaram o motor eu lembrei da época dos turbo que tínhamos na F1, então o vírus acordou dentro de mim, porque ele estava meio adormecido”, contou, em entrevista à repórter Silvia Vinhas, que acompanhou o teste. “Depois, vendo o Emerson andar, o tesão fica muito grande pela coisa, e depois de experimentar o carro, a sensação foi ótima”, disse Senna, ressaltando que a pista era lenta e que o carro funciona de uma maneira bastante particular à que ele estava acostumado na Fórmula 1.

O brasileiro ainda passou mais uns dias com a Penske e acompanhou um teste de Emerson no oval de Phoenix, no mesmo estado. Foi oferecida a chance de pilotar no oval, mas ele declinou dizendo que queria ver mais antes de tentar. Acabou não tentando.

No dia do teste, Emerson já sabia da importância do que acabava de acontecer. “Para nós, é um dia histórico. O Ayrton gostou muito. Mais dia, menos dia, ele vai estar aqui conosco”, disse à Band. “O Emerson ficou botando fogo para eu vir. Estava tranquilo no Brasil, curtindo meu jet-ski na praia. Um dia vou guiar esse carro. É só uma questão de tempo. A gente só tem de esperar o momento e a oportunidade certa”, afirmou Senna.

Antes de ir embora, Ayrton agradeceu e cumprimentou cada um dos integrantes do time pessoalmente. O resto da história, todos sabemos. Roger Penske lembra da felicidade de ter um ícone do automobilismo em um de seus carros – ao lado de outro ícone, Fittipaldi. A pergunta que ficou foi se Senna chegou perto de assinar um contrato para correr com a Penske na Fórmula Indy. “Nunca saberemos. Ficamos muito felizes de tê-lo em nosso carro. Uma pena que ele nunca chegou a correr conosco”, diz Penske. Alívio para Paul Tracy.

Pena que nunca aconteceu.

 

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