'Meu pai não sabe que eu estou no JUBs', diz intercambista camaronês

Ex-jogador profissional, Ulrich Edingele veio ao Brasil estudar agronomia depois que seu pai o aconselhou a desistir do futebol

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A reportagem do Fera chegou cedo ao ginásio localizado na região leste de Goiânia, nesta terça-feira, 24, para ver a equipe de futsal composta apenas por atletas intercambista de vários países da África (Camarões, Benim, Angola, República do Congo e São Tome e Príncipe) fazer sua estreia nos Jogos Universitários Brasileiros (JUBs)

"Se eles fizeram 5 a 0, nós também podemos. Precisamos acertar a marcação. Vamos! Vamos!", incentivava em bom português o camisa 4 da equipe da Universidade Federal de Roraima (UFRR), no intervalo do jogo contra a Universidade da Amazônia (Unama-PA).

A forma como o rapaz apoiava seus companheiros se sobressaía e fazia acreditar que, talvez, fosse mesmo possível virar aquela partida. Afinal, o último amistoso eles venceram por 4 a 3 depois de estarem perdendo por 3 a 1. Mas a história não se repetiu e a equipe de Roraima acabou sendo derrotada por 12 a 2. Depois da partida, o jovem que comandava o time dentro de campo revelou que estava jogando futebol escondido do pai.

 

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“Eu não sou estudante de verdade, eu sou jogador. Mas meu pai falou para eu desistir, porque tive três lesões no joelho igual do (Ronaldo) Fenômeno, mas não precisei operar. Foi quando fiquei sabendo que tinha uma bolsa para estudar no Brasil”, explicou Ulrich Edingele.

“Meu pai não queria que eu estudasse em um país onde tenho amigos, porque não quer que eu volte a jogar. Mas ele não sabe que estou no JUBs (risos). Como poderia vir para o país do futebol e não jogar?", questionou o jovem de 23 anos que chegou a participar da seleção sub-17 de Camarões, depois passou por equipes da terceira divisão da Alemanha, França e Espanha.

 

 

Como fazem alguns dos jogadores de futebol, Ulrich vestiu por baixo do uniforme uma camisa com várias mensagens. Entre elas, uma dedicatória a um colega e a avó que morreram, um "happy birthday" para uma amiga e a frase "pray for Somalia", em homenagem às vítimas do atentado terrorista que aconteceu no país recentemente.

“Eu jogo sempre com essa paixão. Eu gosto muito do Ronaldinho Gaúcho, do jeito dele jogar, e do Neymar. Gosto muito também do Pogba, porque falam que eu sou parecido com ele”. E o Eto'o (maior artilheiro e principal ídolo de Camarões)? “Eu esqueci dele, desculpa (risos). Nem sei o que dizer, ele é meu papai. Graças a ele eu pude virar jogador”, disse Edingele, que começou na escolinha do craque camaronês quando criança.

 

 

No dia anterior, Cristiano Ronaldo foi escolhido pela quinta vez o melhor jogador do mundo, e o camisa 4 também quis dar seu palpite sobre quem é melhor. “Eu gosto mais do Ronaldo, porque ele se parece comigo, ele não nasceu com um grande talento, mas é um jogador que nunca desistiu e sabia que ia chegar onde ele está hoje. Mas o Messi é melhor (risos)”.

Depois da partida conversamos também com o técnico Enedino Neto, que disse estar aprendendo muito com a experiência de ser treinador da equipe. “A força de vontade que esses garoto têm é impressionante. Não só de aprender a nossa língua, mas de se relacionar com com nossa cultura. Nós aprendemos mais com eles do que eles conosco”, disse o técnico. “Eles querem aprender a jogar do jeito brasileiro. Falta técnica e investimento, mas sobra vontade. Todos aqui pagaram as suas passagens, mas dois não tinham dinheiro e a universidade está com as bolsas atrasadas. Poderíamos estar com uma equipe melhor”, defendeu o treinador.

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