Primeira brasileira a noticiar tragédia da Chape relata luto ao voltar para casa

Lívia Laranjeira, do SporTV, disse que volta ao Brasil foi difícil e que pressão impedia que ela se cansasse

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A repórter Lívia Laranjeira, do SporTV, foi a primeira jornalista brasileira a noticiar a tragédia da Chape. Ela ficou quase 24 horas no ar, sem comer ou dormir, para dar conta de cobrir a maior tragédia com um acidente aéreo da história do futebol. 

Em entrevista, ela relatou como se sentiu enquanto noticiava o acontecimento e a dor que enfrentou ao lidar para casa. Confira:

Fiquei de folga nos dias seguintes ao retorno, não tinha muitos compromissos e pensava no acidente o tempo inteiro. Ali que foi caindo a ficha, na volta ao Brasil. Foi difícil nesse sentido. Difícil foi essa chegada, por muito tempo, as pessoas encontravam, amigos, colegas, falavam disso, até hoje ainda falam. Não me incomodo, gosto de lembrar, contar como foi, mas fico falando que preciso me libertar disso, falar outros assuntos para começar a cicatrizar em mim. Primeiros dias foram difíceis por causa disso.

Confesso que não lembro direito como foram minhas entradas ao vivo naquele primeiro dia. Da madrugada do dia 28 até a noite do dia 29. Se alguém me perguntasse se eu conseguiria, falaria: ‘imagina, não conseguiria, que loucura ficar tanto tempo sem dormir, sem comer’. Fiquei o dia sem comer, entrando ao vivo uma atrás da outra. Parece que corpo entende que a situação é mais importante que sentir fome, sentir sono. Meu corpo não deu sinais de cansaço em nenhum momento. Eu fui meio que no automático. Sabia o que precisava falar. Repetia para mim mesma a informação que eu tinha.

Não sei como me segurei, não sentia sono, não sentia cansaço. Fui, se precisasse continuar, teria continuado. Você só sente depois que volta para o hotel, toma banho. Mas na hora, vai embora”, completou.

Naquela noite, tinha muita imprensa no hospital, todo mundo foi para ali meio no susto. Ninguém estava preparado. Eu estava só com blusa de manga comprida. Lá faz mais frio que em Medellin e choveu muito. Sai só para fazer materinha e voltar para o hotel. Não estava preparada para aquele frio todo. Assim como eu, tinha mais gente despreparada. Gente que não dormiu, gente que não tinha jantado, sem carregador. Todo mundo foi pego de surpresa e teve de ir para lá do jeito que deu. 

No meio daquele momento, com informações desencontradas, tudo parecendo caos. Chegou uma senhora, que morava perto do hospital, com bandeja de café e chá. É tão simples. Ela não ofereceu um banquete, mas aquele café, aquele chá, no momento que estava todo mundo tão abalado, transtornado, aquele café foi tudo que a gente precisava para segurar. Vamos continuar firmes, alertas. Não sentia sono, mas tinha de estar muito ligado com a questão das informações.

O dia que fui abraçada foi particularmente difícil. Um dos mais tristes dentro daquela cobertura que foi muito triste. Quando você entra em uma funerária e vê 50 caixões de gente que você conhecia, jogadores com quem convive, comissão técnica, assessoria de imprensa, jornalistas. Foi muito traumático. E depois fazer a saída deles, num cortejo fúnebre. Aquilo tornou real a tragédia inteira. Você sabe que aconteceu mesmo, mas ver os caixões tornou muito real. Eu já estava emocionada, estava difícil.

Fiz entrada dentro do Seleção narrando a saída dos carros e quando os carros terminaram, devolvi para o Barreto (Marcelo) e terminou minha participação. Mas a gente não derrubou o sinal. Então, o SporTV continuava recebendo o sinal, mas não estava no ar. Quando viram as pessoas me abraçando, colocaram no ar. Eu não sabia, só fui saber depois. Até por isso, acabei me entregando mais, me soltando um pouco. Quando está ao vivo, tento controlar. Ninguém julgaria uma pessoa que se emociona num momento daquele. Mas você tenta segurar para a informação não ser prejudicada. 

Naquela hora, eu meio que desabei, as pessoas começaram a cumprimentar, a mim e ao Fabricio Crepaldi, produtor. Dava para ver que estava doendo neles, que era sincero, não estavam simplesmente para aparecer na TV. Eles estavam sentidos. Uma senhora que nem é a que aparece no vídeo, falou: ‘nosso coração morreu com eles’. Quando ela falou essa frase, eu desabei, já estava muito emocionada, muito abalada. Na hora falou essa frase, eu desabei, comecei a chorar. Tentei sair da câmera porque comecei a chorar muito. Aí a senhora que aparece no vídeo viu e veio me abraçar. Foi muito bonito, porque você tira força de lugar que não imagina. Foi momento de muita humanidade, solidariedade, na forma mais pura da coisa. Muito bonito, muito emocionante.

Ter feito parte dessa cobertura da tragédia é uma coisa que me marcou para sempre. Eu acho que sempre vou ser a primeira jornalista brasileira que chegou lá. Olham para mim, neste momento, vai me acompanhar na minha carreira. Me marcou demais, me transformou profissionalmente. Sobre desejo para carreira: quero continuar acompanhando a Chapecoense dentro do possível."

As informações são do UOL Esporte.

 

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