Tite escreve carta aos brasileiros: 'espero que haja paz com quem for escolhido'

Técnico da seleção diz que vai priorizar "chances de vencer" na convocação final para a Copa

Tite escreveu um texto sobre seu papel como técnico da seleção brasileira. O foi artigo publicado no site Players Tribune na manhã desta segunda-feira, mesmo dia em que ele vai anunciar os 23 convocados para a Copa do Mundo da Rússia.

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Em uma espécie de carta, o texto escrito em inglês e intitulado "Para o Brasil" começa contando um pouco sobre sua infância. "Talvez eu esteja mostrando minha idade, mas quando eu estava crescendo minha família não possuía uma televisão. Minha mãe e meu pai eram agricultores muito humildes, e quando eu tinha três anos mudaram-se da roça para a cidade para tentar nos dar uma vida melhor", revela.

Tite fala sobre a mulher batalhadora que é sua mãe e o homem de poucas palavras que seu pai sempre foi. É aí que entra pela primeira vez o esporte: "Eu me lembro que durante a Copa do Mundo de 1970, o país inteiro parou para se concentrar nos jogos. Eu tinha nove anos de idade. Eu sentava em frente ao rádio com meu pai e ouvíamos a magia do futebol", conta.

Ele conta também sobre sua memória da semifinal daquela edição do Mundial, em que o Brasil enfrentou o Uruguai. Descrevendo o momento como inacreditável, Tite diz que não conseguiu compreender ao certo a imagem narrada pelo rádio, já que quem marcou o gol foi Clodoaldo, um meio-campista defensivo, e quem deu o passe da lateral esquerda foi o atacante Tostão.

"Na verdade eu nunca sonhei em ser técnico. Como qualquer outro garoto no Brasil que foi marcado pela Copa do Mundo de 1970, eu sonhava em usar a camisa amarela para a seleção. Infelizmente, esse não foi meu destino. Eu tive que passar por sete cirurgias no meu joelho. Aos 27 anos, minha carreira terminou e eu ainda era jovem. E um jovem que ainda vivia para o futebol. Então eu segui o caminho de ser treinador".

Tite considera difícil acreditar que está nessa profissão há quase 30 anos e conta do dia em que recebeu o telefonema de Andrés Sanchez pedindo para que voltasse ao Brasil e assumisse o Corinthians. Na época ele morava em Abu Dhabi e dirigia o Al Wahda FC. Alguns dias depois ele aceitou a proposta e voltou para São Paulo. 

O começo teve um momento de grande incerteza. Depois de perder a partida contra o Tolima pela Libertadores, o treinador conta que olhou para os refletores do estádio e pensou: "É isso, acabou para você", com medo de perder o emprego na manhã seguinte. Mas isso não aconteceu. "Talvez seja um milagre que o Corinthians tenha ficado ao meu lado sob tanta pressão. Apenas um ano depois, minha esposa e eu estávamos sentados em nossa cozinha em São Paulo tomando um copo de vinho. Eram quatro horas da manhã e havíamos acabado de voltar para casa depois de ganhar o troféu Libertadores".

"Depois da derrota por 7 a 1, acreditei que poderia ser o próximo técnico do Brasil. Eu esperava que pudesse ser minha hora. Quando eu não fui selecionado para o trabalho, serei honesto... eu estava frustrado, chateado, muito triste", admite. Ele conta que chorou durante uma semana depois da decisão que não o colocou no comando da seleção. Depois, ao se lembrar de sua mãe, decidiu ir à luta e passar um tempo sabático fora do Brasil para expandir sua mante e suas filosofias.

O que foi decisivo para a notícia que viria em junho de 2016: foi convidado pela federação brasileira para se encontrar com os dirigentes. A emoção no momento da proposta foi avassaladora, mas Tite confessa que foi também um momento um pouco assustador em que não pôde evitar relembrar o passado. "Para ser honesto, entrei na máquina do tempo e tive lembranças do que aconteceu quando não conseguimos nos classificar para a Libertadores. E pensei: cara, imagine o que acontecerá se isso acontecesse com o Brasil na Copa do Mundo".

Decidido a recusar o emprego oferecido, Tite conta que o que o fez mudar de ideia foi relembrar de sua mãe às 3h da manhã em frente a máquina de costura, e dos momentos inesquecíveis que viveu ao lado de seu pai ouvindo o Brasil jogar pelo rádio. Então, aceitou a oferta e começou seu dia fazendo algo que seu pai faria.

"É claro que adoro falar de tática e estratégia, mas acredito realmente que o passo mais importante foi ligar para todos os jogadores ao telefone e conversar pessoalmente com eles. Eu originalmente queria ir ao encontro deles pessoalmente para poder olhá-los nos olhos, como meu pai teria feito, mas era impossível com tantos brasileiros jogando ao redor do mundo".

Foi nessas ligações que ele solidificou a ideia do que era preciso para criar um bom ambiente de trabalho. Eu disse aos meus jogadores: “Esse é o tipo de atmosfera que precisamos para ter sucesso. Todos lutando um pelo outro, até as estrelas", depois de mostrar um vídeo de uma partida de basquete. Isso mesmo, você não leu errado. O exemplo veio de ninguém menos que LeBron James, que em uma das finais entre Cleveland e Golden State passou a bola para Kyrie Irving que tenta, mas erra a cesta. O que LeBron faz? "Ele lutou para conseguir o rebote, e então o que ele fez? Ele próprio tenta decidir? Não, ele passou a bola de volta para Kyrie, e Kyrie marcou".

"Agora que estamos a um mês do torneio, devo tomar algumas decisões muito difíceis. Eu sei que não posso selecionar todos os jogadores que merecem. Por exemplo, temos três laterais esquerdos que merecem estar no avião, mas apenas duas vagas. Temos que escolher os jogadores que nos darão a melhor chance de vencer, independentemente de quem é mais 'merecedor'",  admite antes de emendar: "Isso é um grande peso, mas espero que haja paz e entendimento com quem é escolhido hoje".

"Só Deus sabe o que vai acontecer na Rússia, mas espero que todo o Brasil esteja unido atrás de nós. Eu sei que a televisão mudou as coisas para esta geração, mas eu gostaria de acreditar que, quando estivermos jogando nossas partidas, ainda haverá milhões de crianças brasileiras sentadas em frente ao rádio, revendo em sua imaginação o gol da vitória por repetidas vezes. Funcionou para mim em 1970. Foi como mágica", conclui. 

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