FERA ENTREVISTA: Everaldo Marques, do sonho com o rádio até o Super Bowl

Principal narrador de futebol americano do País partiu das brincadeiras com gravador, noitada de boxe com Popó ao Super Bowl

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Na maioria das vezes com os comentários de Paulo Antunes, Everaldo Marques ficou marcado como sinônimo de NFL no Brasil. Na ESPN Brasil há 12 anos, sonhava em ser narrador desde criança, mas sempre quis trabalhar em rádio. Começou no jornalismo esportivo na Rádio Jovem Pan, mas saiu por não ter chances como narrador. Após breve passagem pela TV Cultura e uma experiência em um evento de boxe na DirecTV, foi chamado por José Trajano para compor o time de narradores da ESPN, em 2005. 

Desde o início, se colocou à disposição para narrar qualquer esporte, "desde que tivesse um tempinho para estudar antes". No futebol americano, estreou no Rose Bowl de 2005 e começou efetivamente na NFL na temporada de 2006. 

O bate-papo com "Evê" será publicado em duas partes, sendo a primeira, nesta terça-feira, 24, sobre sua história e trajetória no jornalismo, e a segunda, na próxima terça, 31, com causos, curiosidades da sua carreira e como surgem seus bordões mais "ridículos". 

 

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Quando você pensou em ser narrador?

Ser narrador é sonho de criança e depois descobri que, para fazer isso, eu talvez tivesse que fazer faculdade de jornalismo. No segundo ano do ensino médio fiz um curso livre sobre jornalismo esportivo e aí eu tive certeza que queria isso, e entrei na faculdade para tentar concretizar esse sonho. 

 

E como começou esse sonho?

Na época eu provavelmente não tinha consciência, mas eu gostava muito de assistir às transmissões e elas serviam como laboratórios involuntários para mim. Tanto é que, na primeira vez que fui narrador de vôlei, lembrei do Marco Antônio (Matos); quando fui narrar boxe - que foi minha transmissão na vida em TV - lembrei do Alexandre Santos, que eu gostava pra caramba. 

Na verdade, eu brincava de narrar quando era criança. Narrava jogos dos meus amigos, com uns dez anos, futebol de botão. Lembro que na Copa de 1994, pegava cadernos e anotava as escalações de todos os jogos. Na época, a TV Bandeirantes, além dos jogos ao vivo, mostrava à noite o VT de um jogo do dia, e eu abaixava o volume e brincava de narrar, tinha um gravadorzinho. Mas eu fazia tudo em ritmo de rádio porque eu queria, e era meu sonho, trabalhar em rádio. Nunca imaginei iria para a TV. 

 

Agora você está na televisão. Você sente falta de trabalhar em rádio?

Sim, eu sinto um pouco. Rádio é uma paixão. Recentemente, foi Dia do Radialista (21 de setembro) e publiquei no meu Facebook sobre a paixão interna que quem trabalha em rádio sente. Muitos outros colegas que estão fora do rádio também compartilham da mesma opinião. Nesse momento não é possível, paciência. Mas a experiência de ter feito rádio foi muito bacana. Quem sabe um dia eu volto.

 

 

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Você começou no rádio? 

Sim, meu primeiro trabalho como jornalista foi na Rádio Jovem Pan, como produtor de um programa de futebol internacional, depois um de Fórmula 1. Fiquei lá oito anos como produtor, apresentador, fui repórter também, viajei três temporadas com a Fórmula 1. Só que lá eu nunca tive chance como narrador, então acabei saindo no final de 2004 porque eu precisava correr atrás desse sonho. 

 

Logo depois você foi direto para a TV?

Minha primeira oportunidade de todas foi na DirecTV. Em agosto de 2004, o BandSports me chamou para um teste porque precisavam de narradores para a Olimpíada de Atenas. Fui aprovado, mas a Jovem Pan não me liberou. 

Logo depois, teve uma noitada de boxe, antes até do início da Olimpíada, acho que 8 ou 9 de agosto de 2004. A DirecTV, que, além de ser operadora de TV a cabo, tinha também alguns canais próprios, tinha apresentado uma ou duas semanas antes uma noitada de boxe do Mike Tyson que tinha sido em inglês, e choveram reclamações de assinantes por não ter sido em português. Naquele final de semana, ia ter uma outra noitada de boxe com um "agravante", que era a presença de um brasileiro, o Popó ia defender o título mundial dele. A DirecTV então chegou à conclusão que era preciso fazer a transmissão em português, me chamaram e eu transmiti com os comentários de Wilson Baldini Jr.. E foi a primeira derrota da carreira do Popó, ou seja, o meu pé-frio é desde o início da carreira. 

Antes disso, eu tinha já narrado jogos em uma rádio comunitária de São Bernardo do Campo, mas quando eu tinha 20, 21 anos, isso em 1998, 1999. Era um trabalho voluntário e narrava jogos da quarta divisão do Campeonato Paulista, terceira divisão do Campeonato Brasileiro. Mas a primeira oportunidade na TV foi essa com o Popó, só um dia, e seis meses depois pintou uma chance na TV Cultura

 

 

 

Transição do #agoravc para o #futmundoespn

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Como você chegou até a ESPN?

Quando eu fazia a produção desse programa de futebol internacional na Rádio Jovem Pan, quem era responsável pelos boletins da Holanda era o Paulo Vinícius Coelho, o PVC. Um pouco antes da Olimpíada de Atenas, o PVC também descolou um teste para mim na ESPN porque eles também talvez fossem precisar de um narrador freelancer para a Olimpíada. Engraçado que eu fiz o teste com ele de comentarista e o jogo era de futebol. Não entendi nada porque se precisavam de um narrador para a Olimpíada, achei que ia ser de outra coisa, mas não, era de futebol, do Real Madrid. Fui lá, fiz o teste, mas no final não precisaram desse narrador freelancer. Nem sei se iriam me chamar ou não, não tive retorno desse teste e soube depois que não contrataram ninguém. 

Eu conhecia o PVC desde 1997, também conhecia outras pessoas da ESPN e eu estava lá na Cultura quando surgiu a informação de que a ESPN iria precisar contratar uns três ou quatro narradores. Isso porque as transmissões da ESPN Internacional, que eram feitas em Bristol, nos Estados Unidos, passariam a ser feitas aqui, em dezembro de 2005. Como muita gente da redação tinha trabalhado ou estudado comigo, meu nome começou a pipocar para o (José) Trajano e um dia ele me chamou. A gente conversou, eu saí da TV Cultura e da 105 FM, onde eu tinha começado um projeto de futebol em abril de 2005 - e que existe até hoje. 

Eu estreei até antes do previsto, porque eu seria contratado só em dezembro, mas eles precisaram de um narrador em outubro - acabei de fazer 12 anos de ESPN, no último dia 8 (de outubro). 

 

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Qual foi seu primeiro jogo da ESPN?

Foi Holanda x República Checa, nas Eliminatórias Europeias para a Copa de 2006. Foi em outubro de 2005, a Holanda venceu por 2 a 0. Aquele jogo não foi ao vivo. Narrei o jogo na hora em que aconteceu (e depois foi para o ar). 

Na verdade, eu conciliei ESPN e TV Cultura por dois dias. No sábado de manhã, eu fiz um jogo de vôlei na TV Cultura, do Campeonato Paulista, São Bernardo x São Caetano, e saí correndo para gravar esse Holanda x República Checa. 

No dia seguinte, eu fui para o Rio de Janeiro fazer um jogo na TV Cultura, Vasco x Botafogo, ou Vasco x Fluminense, minha última transmissão lá. O pessoal sabia que era minha última transmissão, fizeram de tudo para me ver chorar e quase conseguiram. A partir do dia 10, 11 de outubro eu fiquei só na ESPN. Conversei com o pessoal da Cultura, eles me liberaram, mas pediram para que eu ficasse só mais algumas semanas. 

 

Na ESPN, você começou só no futebol? 

Não, na verdade, quando conversei com o Trajano, eu disse que me sentia confortável para fazer qualquer esporte, desde que eu tivesse um tempinho para estudar. Fiz a transmissão de futebol em um sábado, na quarta, fiz outra transmissão de futebol, um jogo do Paraguai nas Eliminatórias, e, já na quinta, fiz o Torneio de Lyon, de tênis, que foi até domingo. Na outra semana, me colocaram para fazer handebol e vôlei nos Jogos Abertos do Interior. Fiz muito tênis, no começo, então fui meio que fazendo de tudo. Me coloquei à disposição para fazer o que fosse necessário. 

 

Você anota as transmissões que faz?

Não, e hoje eu me lamento por isso. Não sou dos seres mais organizados do mundo, mas hoje eu me lamento por não ter essa organização porque tenho amigos que montam planilhas, cadernos, o escambal, com números de transmissões que participaram. Eu tenho guardadas todas as minhas escalas desde 2010, quando a TV passou a comunicar a escala por e-mail. Não apaguei nenhum deles e, se um dia eu resolver compilar, pelo menos de 2010 pra cá eu consigo organizar. 

 

 

Quando você começou a narrar, a estudar e a virar o sinônimo de futebol americano no Brasil?

Eu entrei aqui em outubro de 2005 e já estava rolando a temporada da NFL daquele ano. A equipe que fazia transmissão tinha o André José Adler como narrador e ficou até o final daquela temporada, com o Super Bowl 40 (Seattle Seahawks 10x21 Pittsburgh Steelers, no Ford Field, em Detroit). 

Então ficou acertado - ficou acertado nada, eu disse para o Trajano que me sentia capaz de narrar qualquer esporte. Quando soube que o Adler não voltaria para o Brasil (as transmissões eram feitas de Bristol, na sede da ESPN americana), eu falei para o Trajano que eu acompanhava NFL, conhecia as regras e que, se precisasse, me sentia confortável em fazer. 

Eu comecei como narrador de futebol americano só em setembro de 2006, a minha primeira temporada completa. Só que em dezembro de 2005, aconteceu um jogo de futebol americano universitário que o Adler não pôde narrar, era um Rose Bowl, uma final, e me avisaram uns três dias antes que eu iria fazer. 

 

 

 

Dia diferente, de ver a NFL não da cabine, mas sim da beira do campo #tudopelaNFL

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Na época, tinha um movimento nas redes sociais - na verdade, só existia Orkut - com um temor de que a ESPN fosse acabar com o futebol americano com a transferência das transmissões de Bristol para São Paulo; que fossem diminuir (o número), 'ah, o Adler não vai narrar, vão botar um cara que não sabe nada de futebol americano', 'vão destruir o nosso esporte'. Então aquele jogo foi de muita pressão para mim para o Sílvio Lancellotti, porque ninguém sabia como seria. Mas na transmissão foi tudo bem e no próprio Orkut, durante o jogo, já tinha comentários do tipo 'o cara está narrando direito', 'o Silvio está comentando bem, vamos pegar leve', 'a ESPN está cuidando bem do nosso esporte'. 

Esse foi o cartão de visitas que eu tive, em dezembro de 2005, para que as pessoas parassem pelo menos de ficar preocupadas com isso. Depois teve até uma lista de e-mails com comentários positivos a respeito da transmissão, as pessoas acalmaram um pouco, e, em setembro de 2006, comecei com o Paulo Antunes a fazer as transmissões da NFL.

 

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